sábado, 28 de outubro de 2017

Em busca do carro tolerável. Capítulo 1: "Kaçando"

Fui "Kaçar"


Se você acompanha este blog (escrever aqui não me dá dinheiro algum, você quer que eu vá chorar para o Temer me financiar?), certamente já deve saber de como é o meu relacionamento com o famigerado Corsa sedã. É o carro que foi referência aqui no Brasil na década de 90, acabando de vez (tá, o Uno permaneceu, mas veio algo melhor, o Palio) com as velheiras filhas do protecionismo soviético do país.

Minha mãe, a principal pessoa que irá ficar com o carro (apesar de eu já ter virado motorista dela, porque ela já reclama de dirigir o Chevrolet... você sabe, direção sem assistência, pedais pesados...), então ficou com a ideia de trocar de carro, após ter dirigido o Fox durante uma viagem, cujo simplesmente a encantou, como se houvesse de repente conhecido um homem italiano.

Deste modo, então o filho aqui, que tem mais tempo disponível (diga-se, desempregado na realidade mas empregado segundo o IBGE), começou então a pincelar as ideias de carros... o carro deve caber na garagem em comprimento (isso é fácil, o Corsa cabe relativamente bem com os 4 metros de comprimento, mas no limite, é claro), modelo 2012 para cima, até R$35 mil e, mais importante, agradar a ela. Eu poderia falar para ela comprar um Focus ou afins (no fundo eu gostaria de um Camry, mas isso é fora da realidade no momento), mas é ela quem no final irá dar a palavra. Então aqui estou eu nessa missão em ajudá-la.

Então no dia 28 do mês de outubro de 2017, fiquei fitando um bonito Ka preto da OLX, aqui mesmo de Mococa. Parecia uma coisa sedutora: modelo 2016, com 14 mil quilômetros rodados (não deixem o Felipe Portuga ver esse carro, por favor), cor preta, bancos impermeabilizados na concessionária Ford, capas nos bancos dianteiros (também genuínas), SE e com motor 1,0 litro, por R$35 mil (leva-se R$0,10 de troco). Só que o desatento aqui esqueceu de ver o manual do proprietário para confirmar...

Dessa vez terá fotos do carro, com a autorização dos donos, um jovem casal. Eles foram amigáveis conosco e nos acompanharam no teste. Então analisemos, da maneira mais fria e com maior qualidade possível de um sujeito sem diploma de jornalismo (bom pelo menos eu não uso a denominação de litragem do motor errada com "motor um ponto zero", ao invés de "motor um litro", cuja é respeitada somente pelas mídias Best Cars, Garagem do Bellote e Autoentusiastas, pelo que conheço até agora).

Introduzindo...



Entrando no carro, começando pelo banco de trás, a impressão é de um carro com espaço satisfatório (o mal que acomete aqui no Brasil é que o carro tem que ter espaço de médio, motor de médio e manutenção de pequeno, graças ao maravilhoso padrão de vida médio brasileiro que permite ter no máximo um carro), no qual a minha cabeça não raspa (o que ocorre no Versa atual, por exemplo), com desenho correto dos assentos. O tecido não é de uma qualidade Vignale mas ele tem bom aspecto e está dentro do esperado, sem nenhuma falha ou desfiamento. O acabamento interno aparentemente é bom. Aparentemente. Como estou acostumado a observar protozoários com milímetros de comprimento ("mal de Lange"), consegui notar peças frágeis nas portas e desníveis na tampa do porta-luvas, o que me decepcionou. Se é que o Ka indiano exportado para os britânicos talvez não mude muita coisa...


Perdoe-nos pela má qualidade da foto aqui. Mas aqui se nota um desalinhamento.



Montagem precária e precariedade no acabamento das portas traseiras. Dá vontade de mandar um tapeceiro colocar uma faixa de tecido acolchoado...

Sentando no banco do motorista, é fácil encontrar uma posição de dirigir. O que eu particularmente estranhei é o pedal de embreagem com curso um tanto curto, talvez seja questão de costume. Achei também o encosto um tanto duro (fazendo justiça, o do HB20 é pior, parece uma tábua, competindo com o City) ou talvez a minha coluna torta esteja sendo exigente demais. O assento está correto quanto ao posicionamento das coxas. Posição toda arranjada, vamos lá.


Ergonomia é destaque no carro. Comandos fáceis e simples de serem usados.


Aqui melhora um pouco, mas era melhor ter deslocado esse pedaço de tecido para a peça onde fica o braço... 

Dando a partida no motor (o abobalhado de novo esqueceu outra coisa relevante: perguntar qual combustível estava usando...), outra coisa percebida foi a aspereza do funcionamento de baixas a médias rotações (em altas não foi possível visto as condições limitadas de teste, um trajeto curto pelo bairro e suas proximidades). Era algo que eu esperava no segundo Corsa e já conhecia dos demais motores antiquados Família I da marca, mas em um motor com projeto e concepção tão atuais como esse (duplo comando de válvulas, cabeçote em alumínio, quatro válvulas por cilindro, variação do tempo de abertura das válvulas tanto nas de admissão quanto de escapamento), é algo lamentável (até o 1,0 litro do Onix, uma reencarnação do Família I, é mais suave). Poderia ter colocado logo as árvores de balanceamento (deve ter melhorado na versão Trail do modelo). O motor em questão tem parentesco, ou melhor, é, a grosso modo, o EcoBoost sem o turbocompressor e injeção direta, com 80/85 cv (gasolina e álcool respectivamente) e torque de 10,2/10,5 m.kgf à 4500 rpm (gasolina e álcool respectivamente).


Muito bom também o painel de instrumentos. Simples e que faz o papel bem-cumprido.

Como de praxe em motores de três cilindros em linha, o motor emite um ronco agradável (se o downsizing tirou sons deliciosos de motores seis-cilindros em alguns carros em troca de um som de quatro-cilindros, neste aqui o três-cilindros parece algo consolador), lembrando motores V6 (anos atrás alguns me debocharam quando eu disse isso do Up, problema deles). O carro às vezes demora um pouco para responder em determinadas faixas de rotação, mas é questão de reduzir uma marcha (outro mal de quem está acostumado a dirigir um carro que consegue rodar a 30 Km/h em rua plana em quarta marcha sem provocar lugging). O carro também tem boa visibilidade e comandos acessíveis e, no caso da alavanca de setas, um manuseio algo refinado (mais um incentivo para você sinalizar sua direção, caro motorista). O painel de instrumentos é simples mas é muito bom, com tacômetro e velocímetro bem posicionados aos olhos, embora a falta do marcador de temperatura de água do motor possa incomodar alguns saudosistas (por favor, não vá exigir a instrumentação de um Mercedes-Benz W126). A direção, com assistência elétrica, tem acerto muito bom e é possível manobrar o carro com um dedo. Bom também o volante, com anatomia adequada para as mãos e polegares que, no modelo testado, tinha uma simples capa para proteção contra ácido úrico e raio solar. Graças ao acerto de suspensão que, ao menos no trajeto com algumas oscilações e irregularidades, pode-se perceber que o carro também tem um rodar macio, algo já esperado de um Ford. Boa também a transmissão, com engates curtos, macios e precisos, com uma ré fácil de ser engatada, como se fosse uma sexta marcha. Não é um câmbio Volkswagen mas já está ótimo. O sistema de ar-condicionado atuou de maneira satisfatória, também. E bons os freios que, embora possam gerar alguma controvérsia pelos discos dianteiros não serem ventilados (e o do Corsa de 2001 é...), atuam bem.


Alavanca com engates precisos e curtos, sem ser "secos". 

O porta-malas possui um tamanho adequado e está dentro da média do segmento. Não, eu não testei o sistema de áudio, me desculpe por isso. Bem úteis os porta-objetos nas portas.

Em matéria de segurança, o carro fica numa posição medíocre (esperado de um país que se acha o centro do mundo e se fecha, a festa deve acabar com o fim do Atrasa... ops, Inovar-Auto), com os esperados freios antitravamento e bolsas infláveis frontais, além do sistema ISOFIX de fixação de cadeirinhas (pelo menos na linha 2017 a Ford tomou consciência, após aumentar o preço um monte de vezes, ao colocar os quinto encosto de cabeça e cinto de três pontos), mas fica o puxão de orelha para a falta das bolsas infláveis laterais e, o mais cômico de todos, a falta de repetidores laterais de direção, coisa que existia num Ka básico ao extremo da década de 90. O pacote de itens de conveniência é bom e suficiente para sobreviver: banco traseiro rebatível, ajuste de altura no volante, direção assistida, ar-condicionado e travas e vidros dianteiros com acionamento elétrico.


Porta-malas com espaço adequado.

Eu poderia levar o carro para uma rodovia, mas acalme-se Felipe, o carro não é seu e isso talvez incomodasse os donos. Você ainda tem mais carros para testar. E para a mãe também. Ah, ela gostou do carro. Você ainda usará um carro pelo PegCar. Ou algum outro aplicativo fora das jurássicas locadoras de carros (torço que esses aplicativos façam o mesmo que a Netflix fez com as locadoras de filmes).

Este é o primeiro capítulo. Os próximos capítulos serão feitos conforme os respectivos proprietários e lojas colaborarem conosco. Estamos de olho.

Pontos fortes:
- Suspensão;
- Transmissão;
- Aspecto visual do interior;
- Instrumentos;
- Ergonomia;
- Ronco do motor;
- Versatilidade;
- Posição de dirigir;
- Espaço interno;

Pontos fracos:
- Qualidade construtiva;
- Aspereza de funcionamento;
- Anatomia do encosto dianteiro;
- Segurança;

Ficha técnica:

Motor: dianteiro, transversal, três cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro, bloco em ferro fundido e cabeçote em alumínio, tração dianteira.
Taxa de compressão: 12:1
Cilindrada: 997 cm3.
Diâmetro e curso: 71,9 mm e 81,8 mm.
Freios: dianteiros a disco e traseiros a tambor.
Potência e torque máximos: 80/85 cv a 6300 rpm (gasolina e álcool respectivamente) e torque de 10,2/10,5 m.kgf a 4500 rpm (gasolina e álcool respectivamente).
Transmissão: manual de cinco marchas, todas sincronizadas. 
Relações de marcha: 1ª 3,85; 2ª 2,04; 3ª 1,28; 4ª 0,95; 5ª 0,76; Relação de diferencial: 4,73
Suspensão: dianteira independente McPherson e traseira eixo de torção.
Direção: pinhão e cremalheira, com assistência elétrica.
Diâmetro de giro: 9,6 metros

Dimensões:
Comprimento: 3,886 metros
Largura: 1,69 metro
Altura: 1,52 metro
Distância entre eixos: 2,49 metros
Massa: 1026 Kg
Porta-malas: 257 litros

Pneus: 175/65 R14

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