terça-feira, 28 de junho de 2016

Peugeot 107, filho de um casamento a três


Fruto de um casamento a três, esse urbano tinha algumas particularidades

Não é de hoje que esses pequeninos, conhecidos como city cars, fazem muito sucesso no vasto mercado europeu. Em um continente com cidades históricas e ruas estreitas, esses verdadeiros carros urbanos atendiam àquele sujeito que apenas queria um meio de transporte, para ir na faculdade e/ou no trabalho, já que seu preço, abaixo dos doze mil euros, era muito acessível para aquele povo.

O que torna este carro mais curioso é que ele foi fruto de um projeto envolvendo uma joint-venture entre a PSA e a Toyota (chamado de B-Zero), evidenciando que não é de hoje também que a marca se envolveu em parcerias, o que lembra hoje do atual motor Prince, usado também em modelos dos bávaros da BMW. 

Sucessor do 106, que chegou a ser vendido no Brasil também, que havia saído de linha em 2003 após 12 anos de mercado, o novo carro chegava em junho de 2005. Foi desenhado pelo italiano Donato Coco, do qual saiu modelos como o C2 e o C4, da mesma marca.

Saindo da fábrica da República Tcheca, na cidade de Kolin, da linha TPCA, cuja sigla significa Toyota Peugeot Citroën Automobile Czech ("Czech" não merecia uma sigla?), ele teve também dois irmãos, o Citroën C1 e o Toyota Aygo, vendidos no mercado europeu até hoje, em suas respectivas atualizações.

Citroën C1

Toyota Aygo

Não são meras coincidências as semelhanças. Mas que a estratégia da marca em se unir com a Toyota foi boa, ela não deixa dúvidas. 

Vinha com tração dianteira, suspensão dianteira McPherson e traseira semi-independente com barra de torção, freios dianteiros a disco ventilado (o 208 brasileiro, básico, por exemplo, não tem) e traseiros a tambor. Era uma receita básica e adequada ao pequeníssimo. 

Inicialmente veio com o pequeno motor três-em-linha de 1,0 litro, com quatro válvulas por cilindro, duplo comando e de bloco com construção em alumínio. Esse motor, japonês, dotado do VVT-i (pela sigla você já deve saber que é um Toyota), era utilizado em vários outros modelos, o que barateava e facilitava os custos de manutenção. Tinha 68 cv e 9,5 kgfm, valores bons (aproximados) para um motor pequeno e um carro de tal proposta.

O preço e o porte pequenos do carro, neste anúncio, são comparados a cabeça de um palito de fósforo. Que baita criatividade.

O motor foi premiado quatro vezes, de 2007 a 2010, pelo International Engine of the Year, na categoria de motores abaixo de 1,0 litro.

Além disso foi considerado um dos carros mais confiáveis fora da garantia, no caso com mais de três anos.

Havia ainda um movido a diesel, conhecido como HDI (se você já leu a matéria do 307, você vai saber), 1,4 litro, oito válvulas, 54 cv e 13,4 kgfm. Era turbinado, mas sem o intercooler. E coincidentemente este motor era fruto de uma parceria entre a Ford britânica e a PSA. A PSA era, de fato, especialista em "fazer amigos" por aí...

As transmissões eram tanto a manual de cinco marchas quanto a semi-automática de cinco marchas. Para o modelo a diesel, somente caixa manual.

No pequeno carro com massa inicial de 765 Kg, certamente os motores combinavam com o carro, deixando-o muito eficiente (mesmo o movido a gasolina), mesmo que os 35 litros o faça ter uma autonomia menor. Mas poderia rodar mais de 30 Km com um litro de gasolina, e mais de 40 Km com um litro de óleo diesel...

O carro media 3,43 metros de comprimento, 1,47 metro de altura, 1,63 metro de largura e 2,34 metros de entre-eixos. Ideal para estacionar em vagas apertadas. Certamente não faria feio nas grandes cidades brasileiras.

O carro tinha destaques em segurança desde a versão básica, vindo com duas bolsas infláveis (as laterais eram opcionais por pouco menos de 600 euros, de série a partir da versão XS), freios com sistema antitravamento e distribuição eletrônica de frenagem (EBD), além dos de conforto, tais como vidros dianteiros elétricos, volante ajustável em altura e direção assistida.

O carro não chegou a ser avaliado pelo EURO NCAP, no entanto, seu irmão Citroën C1 recebeu em 2005 quatro estrelas para adultos e crianças, e duas estrelas para pedestres (neste caso a pontuação máxima é de quatro estrelas). O Toyota Aygo, curiosamente, recebeu em 2012 uma média de três estrelas, ou seja, reprovável para o consumidor europeu. Certamente naquele período o instituto já havia passado a utilizar uma metodologia mais rígida.

O desenho era bem resolvido, com linhas simples e que se harmonizam na pequena carroceria. A tampa traseira sempre vinha em vidro, como é hoje no Up eslovaco.

No modelo cinco-portas, os vidros traseiros eram acionados meio que de maneira escamoteável (me lembrou do Uno três-portas do qual tive convivência... ), assim como no três-portas.

Desenho harmônico e simples no pequeno franco-tcheco.

O interior era bem espartano. As portas tinham a lataria a mostra, o opcional conta-giros parecia uma adaptação de pós-venda (mas que ficou boa, se for pensar bem) e o painel de instrumentos tinha somente o básico velocímetro e o marcador de combustível. Havia uma discreta saída de ar no centro do painel, que certamente inspirou o desenho do interior do Up...

Bancos com encosto de cabeça integrado, conta-giros digno de adaptação eram coisas que chamam a atenção no simples interior. 

Bancos rebatíveis e... você notou que o carro era quatro-lugares? Sim, são coisas inerentes aos city-cars. Note as alavancas nos vidros traseiros.

O porta-malas tinha apenas 139 litros, mas não se preocupe, você poderia rebater os bancos e deixar a capacidade de até 712 litros.

"Você recicla?" "Sim. Eu mastigo meu chiclete debaixo do banco e o uso no dia seguinte." 

"Você sabe qual é o melhor meio de economizar ao aquecer?" "Claro. É deixando eu dormir em sua cama."

"Você não se importa sobre o aquecimento global?" "Eu sou só um cachorro. Eu me importo somente sobre eu pegando minha cauda."

"Se você também se importa sobre o meio ambiente, mas ainda precisa de um carro, o 107 é para você: o mais econômico (consumo de 4,1 l/100 Km em ciclo combinado), menos poluente (emissões de CO2 de 108 g/Km)."

Assim era a publicidade deste anúncio da Peugeot de Portugal, fazendo comparações relacionadas sobre os diálogos e o carro, destacado pelo baixo consumo e baixas emissões.

O modelo foi avaliado pela AUTO CAR, mídia automotiva inglesa:

"Desempenho é modesto. O 0-100 leva 14,2 segundos (14,9 segundos para o semi-automático) e velocidade máxima é 161 Km/h - mas é uma brava unidade e produz alguns agradáveis ruídos, então andar com ele pela cidade pode ser muito divertido. O diâmetro de giro é impressionante também, o qual, combinado com direção leve, faz o estacionar algo muito fácil.

O rodar é um pouco duro, no entanto, e vagueie em rápidas vias e auto-estradas e você notará um pouco de ruído de vento. O motor não irá sentir muito fora de sua capacidade, mas a falta de refinamento não irá fazer por uma experiência particularmente agradável.

[...]

No interior, no entanto [...] a cabine [...] tem seu apelo original. É pequena, claro, mas uma grande área envidraçada ao redor o faz sentir mais espaçoso do que realmente é.

Para um carro urbano o 107 [...] risca todas as caixas certas. É disposto, fácil de dirigir e surpreendentemente espaçoso, mas cai em um significante obstáculo: preço."

Segundo a CarBuyer, também inglesa, o carro obteve uma nova média de 4 de 5 estrelas segundo avaliações de seus donos, agradando principalmente em facilidade de dirigir e estacionar, motor e custo de manutenção. Alguns criticam os ruídos internos e pobreza do interior.

Em 2008 o modelo recebia uma levíssima plástica, da qual diferencia-se principalmente no novo desenho da grelha dianteira. Houve também novas padronagens de tecido.

O visual externo do carro continuava bem-resolvido. Não havia, definitivamente, nenhum motivo para reestilizá-lo.


Em mercados mais competidos, é comum as fabricantes darem várias opções de revestimento, não sendo diferente, portanto, no 107.

Para a versão básica eram disponibilizados como opcionais o sistema de áudio. A versão mais cara, a Sublime, tinha como opções bolsas infláveis de cortina. Já vinha de série com ar-condicionado manual, vidros elétricos, travamento central das portas, tacômetro, descansa-braços para os bancos traseiros e sistema de áudio.

Chega também a versão GT Line, um mero adereço estético. Nada de modificações no motor e na suspensão. Era só um pacote.

O modelo tinha alguns detalhes estéticos interessantes tais como a saída de escape, mas por que não um esportivo de verdade?


A questão é... o pequeno capacete teria afinal, alguma relação com o tamanho do carro?

Havia ainda a Sportium, uma edição especial que adicionava em relação ao Urban vidros traseiros pintados, rodas de alumínio de 14", ar-condicionado, além de alguns detalhes no interior.


Para 2010 é lançada a edição especial Millesim 200, tanto para o três-portas quanto para o cinco-portas, com alguns detalhes exclusivos tais como revestimento exclusivo nos bancos. Em janeiro do mesmo ano o carro é convocado para um recall que envolveu "abaixo de 100 000 unidades", segundo a marca, que afetou também o Citroën C1 e o Toyota Aygo, relacionado ao pedal do acelerador, cujo defeito pode afetar seu posicionamento em determinadas condições de funcionamento.

Além disso a versão básica XR pode ter como opcional o ESP, programa eletrônico de estabilidade, por meros 430 euros. A intermediária XS podia ganhar bolsas infláveis de cortina opcionais.

Em 2011 surgia a Black & Silver, a mais cara da linha, com volante revestido em couro. Ainda era lançada a Accent (por que esse nome?), um pouco mais cara que a XR, mas com ar-condicionado.

No ano de 2012 o modelo recebia uma reestilização mais ampla. O modelo recebia LED's diurnos, itens que além de darem um aspecto belo para o carro, ainda servem como itens de segurança, dando mais visibilidade aos outros motoristas no trânsito, principalmente em rodovias. A grade dianteira mudava novamente. Havia também novos detalhes no acabamento nos pára-choques.

Se se preocuparam em mudá-lo para melhor, conseguiram fazê-lo. O modelo continuou bem bonito e com aspecto ainda mais atual.

As denominações das versões tornaram-se todas novas. A versão básica, a Access, ganhou no ano seguinte (de série!) bolsas infláveis laterais, de cortina, controles de tração e estabilidade.

Novos eram o revestimento no pomo do câmbio e desenho do volante, mais algumas diferenças na última reestilização, do carro que se despediria pouco tempo depois.

A partir da intermediária Première, já vinha de série com luzes diurnas de LED.

Em 2014 o modelo saía de linha e dava seu lugar ao 108, que curiosamente ainda sai da mesma linha tcheca, assim como os já mencionados anteriormente irmãos C1 e Aygo. Durante esse período vendeu aproximadas 748193 unidades, o que não é tanto, visto que o 206 vendeu mais que isso no seu primeiro ano de chegada! Sejamos justos, o 107 teve uma restrita oferta pelo mundo e foi feito somente na linha tcheca, enquanto o 206 foi fabricado desde as tradicionais linhas francesas, até as mais curiosas e distantes linhas iranianas e chinesas!

Com a nova identidade da marca, na época já presente nos novos 308 e 208, o carro chegou com os novos motores 1,0 litro e 1,2 litro de três cilindros. Opa... mas esse 1,2 litro chegou recentemente nos C3 e 208 aqui no Brasil! Isso mesmo, é o mesmo motor.


Dependendo da versão, pode vir com bancos revestidos em couro, câmera traseira para manobras, além de vários tipos de personalizações.

Novo interior também podia vir com central multimídia.

O interior, embora renovado, continuava simples, como se espera na categoria. Na opinião do autor, o desenho da seção central do painel desarmoniza com o restante do ambiente.

Num país onde o Volkswagen Up é um dos poucos destaques da categoria, o 108 poderia ser um forte concorrente para o modelo brasileiro, não acha? Melhor ainda, trazê-lo como Toyota Aygo!

Em outras partes do mundo

Onde tem demanda, tem oferta, certo? Certo.

E um dos países vizinhos nos quais o modelo foi vendido, vamos citar o Chile. Sim, aquele país pequenino que hoje é conhecido como o único país rico da América Latina. Não poderia ser diferente  ao ter essa opção por lá. Aquele país é conhecido por ter uma vasta opção de carros importados de todas as partes do mundo, desde chineses até alemães.

Também foi vendido em Singapura, uma pequenina cidade-estado, sim, aquela que tem o maior número proporcional de milionários do mundo. Foi comercializado também em Israel, país conhecido por ter também uma grande variedade de veículos.

Para a Peugeot de Singapura, o modelo é mencionado como o "carro pequeno com a maior atitude".




Não faltou bom humor para a Peugeot chilena, ao mencionar o tamanho dos personagens, neste caso comparando o carro a Napoleão, Mestre Yoda e Rambo.


Fora da mídia automotiva

Sim, este carrinho também estrelou... ou melhor, fez algumas aparições em filmes e séries de TV. 

Na nova série de TV francesa Baron noir (estreada nesse ano), conhecida também como Republican Gangsters, o carro faz uma discretíssima aparição, mostrando apenas parte de sua lateral.


Também apareceu na israelita série de TV Johnny & Knights of Galilee, exibida desde o ano passado. É um modelo da primeira plástica. Você consegue entender o que a legenda quer dizer?


Fruto de um casamento diferenciado, este pequenino urbano de oferta restrita, agradou pela confiabilidade, baixo custo de manutenção e consumo, mas que, como se espera de um carro de tal porte, não é o ideal para fazer viagens e como um carro familiar. Ele demonstra também que a marca, ao fazer boas parcerias, consegue ganhar mais credibilidade no concorrido segmento de carros.

Fontes: Wikipedia, Cars-data, Moniteur Automobile, AUTOCAR UK, Razão Automovel, Car.Blog, CarBuyer, Honest John, Auto Data-Base, Auto Evolution, Internet Movie Car Database.



Nenhum comentário:

Postar um comentário